domingo, 24 de janeiro de 2010

adeus estrume, minhoca, adubo, esterco, titica, cocô de porco!


Eu gosto das pessoas que fumam um cigarro e imediatamente acendem outro. Acho bonita a certeza que elas tem de que podem, querem e vão fumar. É isso que elas podem fazer quando são desalojadas do local onde toca a música para alimentar seu vício. E lugar onde não toca música, hoje em dia, dá medo, até nas pessoas que apreciam excessivamente o fumo. Elas costumam ter o dedo indicador da mão direita amarelado desde a unha até um pouco abaixo do primeiro nó, à moda dos velhos fumadores inveterados. Está provado que adimiro os velhos de garganta seca que não tem mais tempo para questionar leis. Mas também gosto muito do Caetano Veloso, que está todo resmungão no início da velhice, que é mentira também.


- Olha o tipo de coisa que transmito nesse meio! É o puro suco da inultilidade aguada no gelo de torneira. Não vou mais me submeter a esta situação. Pretendo criar um novo lance, mais de acordo com as minhas necessidades, que vou recomendar com se fosse espaço de grande interesse e refinamento, inclusive aos familiares e desconhecidos. O Henrique vai precisar me ajudar, ele é o homem da paciência e competência indiscutíveis; eu, apenas uma vítima da bobagem coletiva, indiscutível, meu bem, não discuta comigo, não sobre esse tópico.

Ótimo, estou avisando-o por aqui mesmo. Que essa bobagem entitulada estrume, não sei que e blah blah blah, já teve sua vez e hora e que morre hoje, sem "foguete, sem retrato, sem bilhete, sem luar nem violão". Pensei mesmo foi encerrar com um ensaio sensual meu, mas achei que ficaria um pouquinho vulgar, além de gastar precipitadamente meu hipotético trunfo, logo assim, em começo de carreira. (neste parágrafo eu tentei ser engraçada, repare!)

É bom que esse lance de bloguinho acaba virando um diário de idéias mais ou menos organizado, que a gente pode consultar se estiver interessada. Por incrível que pareça eu de fato consulto, em momentos de desespero, quando esqueço meus pensamentos ou não me lembro de tê-los. É um reconforto se reconhecer capaz de articular idéias inteligíveis realmente importante para mim, minha cabeça é muito instável e, salvo os cabelos mui elogiados (uiuiui), não carrega nada de muito bom.

Acontece que eu revejo as coisas como distantes demais. E vou sair, mudar, virar a cabeça do que me virou nessa nova bossa. Tem a ver com o ano que passou. O ano de 2009. Eu nunca falei de outro ano com tanta insistência. O outro ano dessa amplitude que eu vivi se chamava 94. Esse é então 009, porque a gente viveu não somente uma virada de década. Somos a última esporrada do século XX (nós 85-90, eu já disse! pessoas que se masturbaram para chacretes na época em que elas ainda eram gostosas e as que aprenderam a falar com telletubies não servem) e esse último ano foi um chute no cu de quem tem (cu). Não conheço um ser que o haja passado em brancas nuvens. As voltas foram enforcantes, se também firmes, vamos ver é pra agora, pra adiante. Mas as voltas foram muitas.

A maioria das pessoas tentaram começar o ano passado com cautela por causa da crise mais hype da vida do mundo. Eu comecei mandando tudo pro inferno, apaixonadamente, do que nunca me arrependeria. Baby, eu entrei o ano lendo em regozijo Os Irmãos Karamázov pela primeira vez, existe perspectiva mais linda? Poderia um ano novo tão lisérgico, "patola e folgazão" ocultar tanta força destrutiva? Poderia, pode, foi podendo. Mas logo de saída eu já me avisei que podia nada dar certo e me peguei tantas vezes na mentira. Mas virei um outro ser, nada diverso nas limitações, mas realmente mais amável no que posso resumir em sentimentos e referências.

Cristo-deus-pai!, antes do ano passado eu ainda não havia lido uma linha de Beckett, que não fundiu minha cuca, fodeu minha caveira e me fez falar de coisas que eu pensava que não conhecia, de maneira muito diversa do que eu antes julgava arrogantemente conhecer. Antes do ano que passou eu era também analfabética no que concerne ao cinema brasileiro, gozo de pelo menos nunca ter parado de estreitar meus laços com ele desde que me peguei em falta com o filhote mais fraco da nossa apoteótica arte nacional. É, eu sou ufanista, patriótica, babaca, estilão "Ame-o" e "a Bahia é linda"! Pour vous, c'est chauvinisme? Cara, eu não vou levar isso pra análise, tenho outros lances que me incomodam um tantão mais.

Acontece que outras coisas incomodam um tantinho menos, saca? E cada vez menos e menos e hoje pra maioria dos babacas eu procuro não existir. Antes de 009 eu ainda cultivava relações superficiais com pessoas superficiais, porque.. bem, simplesmente porque as conhecia e o homem é um bicho que anda em bando, mesmo que seja um bando de bosta. Não generalizo, não estou dizendo que andava de mãozinha dada com cocozinhos por aí. É que a gente muda e de repente o ombro que eu dava pra um chorar, não dou mais nem pra se apoiar de bêbado da minha própria pinga. Não sou malvada, embora tenha uma fama ridícula que nunca ninguém confirmou, mas compreendi que, além do perdão, virtude à qual já me uni e duvido de quem faça uma cachorrice capaz de perverter meu espírito de felino dócil, há a dignidade, e a minha eu cuido, do meu jeito, é verdade: do meu jeito é verdade e ponto. Estou muito incisiva? Eu diria conclusiva, aliás, mas não quero perder muito mais tempo listando acontecimentos do ano que passou.

Ah sim, o grande episódio apoteótico (estou amigada com esta palavra hoje) de uma mudança: ali, pela onda da morte de Michael Jackson, quando redescobri minha linda amizade de infância, o que foi com toda a certeza um presente de ordem divina, porque minha querida amiga Lívia apareceu-me em sonho pouco antes de voltar a respirar, viver, falar e falar, beber, existir do meu lado, quando fiquei literalmente sem lenço e sem documento, "sem dinheiro, sem comida e feliz da vida". Realmente ouve um lance de azar, mas o azar nada mais é que uma nova chance para a sorte. Acontece que eu peguei um objeto enfeitiçado na rua, a saber, uma imagem de buda em gesso vulgar, que me trouxe uma onda curiosa de azar, que não foi de todo horrorosa: culminou em uma sequência de assaltos, que me arrancou uma bolsa bandeirosa da Diesel que só estava fodendo meu ombro e confundindo os outros a respeito de minha situação financeira; não um lenço, mas uma caixa cheia deles, que eu carregava, ora vejam só, antes da onda suína que dançou na cabeça da galera mais paranóica; minha carteira contendo documentos, até o RG com aquela foto tão bonita, tão raro foto de RG bonita, puxa!, e alguns recuerdos, lixo acumulado de carteira junto com cartão, bilhete e carteirinha, tudo que define o padrão e a função de um ser humano em sociedade; também muito, muito tristemente, minha edição de Malone Morre que furtei de minha própria mãe, mas que, afinal, propiciou-me uma deliciosa demonstração de amizade de minha querida Didi, que encomendou eu novo Malone lá da Bahia; meu celular também foi levado e eu sou de apreciar que não me liguem, senão com longo intervalo de tempo entre uma chamada e outra; e finalmente e beneficamente, levaram meu primeiro moleskini, que, além de conter a raíz primeira de meu novo estilo, continha opiniões preconceituosas e negativamente ingênuas que eu nem faria bem em revisitar.

Porra, me livrei de tanta tralha e me senti tão completa. Mesmo nas paredes finas de um apartamento caixótico, onde vivia próxima a pessoas que só faziam criticar meu jeito de viver, meu jeito de andar, de falar, ouvir minhas músicas, fazer amor. Aporrinhação no duro, sacanagem, patifaria. Daí eu saí fora. Entrei noutra. Mas já não estava exultante de alegria, não havia uma razão que eu encontrasse para me alegrar por completo. Não havia um ente alegre que me fizesse cafuné, porque todos estavam desesperados. Foi precisamente o que aconteceu nesse ano, parece que foi um excesso de tudo. Passei meses ouvindo transas horríveis por causa de trabalho, doença, violência, trairagem, enlouquecimento, internação, acidentes, quedas, desmaios, operações e mortes. "Veja bem, meu bem, a vida não é sempre linda", eu sei, eu consigo perceber, não pensem que tenho um estômago de sacola de supermercado, ele é fibroso apesar da gastrite. Mas porra.

Me indignei e agora perdi o fio, não vou falar mais desse ano que já depois não me trouxe nada de bom, além, é claro, do Henrique, amor que não acredito haver perdido; e penso assim hoje, não antes. É o que não era antes de 009, não. Sou o que não era, distante e próxima do que desejava quando ousei me transformar. Muito mais próxima do que ousei me aproximar e assim um tanto distante, compreendeis? Que viesse a chorar um copo d'água ouvindo Roberto cantar Como 2 e 2, podia supor remotamente, que transbordasse dois ouvindo Cavalgada com Nara, nunca me passou pela cabeça. E agora vou-lhe dizer, a ele, o Henrique, essa coisa tão simples e bonita, de palavras que faço minhas, por muita identificação: que "a paz que eu tanto quero ele traz no coração".

Tanta melosidade açucarada só escrevendo mesmo, no trato pessoal garanto que permaneço a mesma casca grossa, que parece criada na boca do cais. Nananão, sou de família e "de família" a alguém tão distante de qualquer nobreza, só pode mesmo significar que me preocupo com a minha família e me faço presente, tão dedicadamente quanto possa. É um pouquinho reconfortante conhecer um pedaço do que se deseja. Pretendo ainda apenas me redimir de algumas desfeitas e reatar relações que nunca deviam ter sido rompidas, rompimentos passageiros, os restos caquéticos do mal em decomposição. O projeto está em curso, acreditem, oh amigos, eu não esqueço.

E agora vou falar uma coisa profundamente idiota: dá pra transformar mandioca braba em doce; e eu quero mais lisérgico que o do ano bom passado. Ano bom haha.

Aguardem minha
Aventura Maravilhosa no País da Canção - um mimo apenas, um brinde à passagem.

Bem, é só isso. O que eu preciso é de um blogue que cante, sabe, eis finalmente toda a sinceridade.

1 comentários:

  1. pois é você está sem açúcar...mas as lições duras da vida são assim mesmo. Porém eu penso que há mais vida em você e há mais ternura e amor do que em muita gente que sempre teve tudo facinho.

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chora mas não se demora
mora que ninguém dá bola